Ao ver Dona Otília Gabriela Leite, 58, em seu bar predileto do Rio de Janeiro (aonde vai quase que diariamente tomar umas cervejinhas geladas), ninguém imagina quem um dia ela já foi. Orgulhosa de tudo o que viveu, ela afirma: "É claro que eu não fico no bar contando o que eu faço, mas se me perguntam, eu digo". Afinal, ela afirma categoricamente que ser prostituta é "um trabalho como qualquer outro".
Fã de Channel, a ex-prostituta chamou a atenção da mídia ao criar uma grife direcionada às garotas de programa. Mas, a verdade é que o envolvimento de Gabriela com a estética do meretrício vem de antes: "Houve um tempo em que as meninas mais pobres estavam muito mal vestidas, elas estavam gordas e andavam de chinelinho" ela lembra, consternada. "Um dia, cheguei para elas e falei: 'P..., gente! Não tem que ser assim!'. Um tempo depois, um amigo antropólogo comentou comigo que elas estavam com uma aparência bem melhor e eu fiquei bastante feliz com isso...".
O upgrade no visual "das pu" mexeu com a cabeça de Gabi. E acabou virando trabalho: nasceu a Daspu, em uma paródia ao império do luxo paulista Daslu. Mais do que trabalho, virou projeto social - até hoje, a grife arrecada fundos para a ONG da Vida, que luta pelos direitos das profissionais do sexo. Hoje, com quatro anos de existência, a marca coleciona conquistas: fez parte do figurino da personagem Bebel, de Camila Pitanga, na novela Paraíso Tropical da Rede Globo, vestiu Adriane Galisteu em um de seus programas, teve Nana Gouveia como modelo e atualmente veste parte do elenco da também global Caminho das Índias.
Com quase 30 anos de militância, a "mãe da Daspu" ainda comemora mais um de seus feitos: neste mês de abril, ela lançou seu segundo livro Filha, Mãe, Avó e Puta. O !NoMotel foi atrás dessa figura ímpar e descobriu um pouco mais sobre esta mulher que não quer tirar ninguém dessa vida. Quer apenas dignidade para as mais antigas das profissionais.
!NoMotel: O que mais influencia alguém a se prostituir?
Gabriela Leite: Ser prostituta é a mesma coisa que ser jornalista, por exemplo. É um trabalho como qualquer outro.
!NoMotel: Então, por que você acha que algumas prostitutas têm vergonha de assumir o que fazem?
GL: Principalmente porque é algo muito difícil perante a sociedade. A maioria das prostitutas acaba assumindo uma vida dupla para poder levar a profissão.
!No Motel: É por isso que muitas usam "nomes de guerra"?
GL: Hoje em dia pouca gente usa, mas em décadas passadas isso era muito comum. Eu, por exemplo, tinha nome de guerra por causa disso. Uma vez me perguntaram sobre isso e sabe o que eu respondi? Falei que eu era como a Fernanda Montenegro, uso um nome diferente para fazer o meu trabalho (risos).
!NoMotel: E qual é o seu nome verdadeiro?
GL: Meu nome é Gabriela (risos)! Na verdade, meu nome é Otília, mas eu já introduzi Gabriela nos meus documentos. Atualmente, está lá: Otília Gabriela.
!NoMotel: Na sua opinião, o que sua antiga profissão tem de melhor?
GL: O melhor de tudo é poder trabalhar diretamente com homens e entender como funciona a sexualidade. Não ter patrão e fazer o que bem entende também é muito bom.
!NoMotel: Para você, ser prostituta tem a ver com ser livre?
GL: Para mim tem, mas para muitas não. Você trabalha com a questão da sexualidade como realidade e muitas, por conta da moral, acham que ser puta é sinônimo de sofrimento. Para mim, não é. A gente tem que sair debaixo do tapete e não fazer o que os outros estão falando.
!NoMotel: Em sua ONG, quais as maiores queixas que as meninas fazem em relação à profissão?
GL: Elas reclamam muito da polícia e da violência. Elas falam muito sobre serem mal tratadas e é por isso que estamos fazendo um grande levantamento sobre as coisas trágicas que acontecem com elas. No Rio de Janeiro, isso caiu um pouco porque estamos sempre em cima, mas imagine o que acontece numa cidadezinha de interior no centro do país...
!NoMotel: O que você acha que deveria ser feito para que o índice de prostituição infantil diminuísse?
GL: Acho que todos deveriam trabalhar juntos nessa questão. Não é só na prostituição que vemos crianças sendo exploradas, mas em um todo, tem muita criança trabalhando! Numa sociedade justa, tempo de criança é tempo de brincar e estudar.
!NoMotel: Seu novo livro aborda questões familiares e sua antiga profissão. Como sua família encara isso atualmente?
GL: Tenho quase 30 anos de militância (risos). Comecei na década de 70 e desde então, minha família sempre soube. A princípio não foi fácil para eles conseguirem entender, mas sempre adotei a postura de falar e não ter vergonha disso. É claro que eu não fico no bar contando o que eu faço, mas se me perguntam, eu digo.
!NoMotel: Qual a melhor recordação que você tem dos tempos de prostituição?
GL: Quando cheguei à zona de boemia de Belo Horizonte. Como uma boa paulistana, eu nunca tinha saído da cidade e, ao chegar na casa de BH, estava um cheiro maravilhoso de feijão que a cafetina estava preparando. Até hoje, quando sinto o cheiro de feijão, me lembro disso. Outra boa recordação que tenho foi de quando cheguei no Rio de Janeiro, eu amo essa cidade e aqui estou desde 1982. Devo isso à minha vida errante, pois sem ela, eu não estaria nesse lugar que tanto gosto (risos). Sem passar por esses lugares, eu provavelmente ainda estaria em São Paulo levando uma vida de casada com um homem engravatado que sairia cedo e voltaria tarde; eu ficaria cuidando de filhos e netos... não digo que isso seja ruim, mas digo que essa não é vida para mim (risos)!
!NoMotel: E qual a pior recordação da vida de prostituta?
GL: A pior é a violação dos Direitos Humanos e os maus tratos que sofremos por parte dos donos das casas. Existem bons donos e maus donos, pois alguns não sabem como fazer o negócio, não dão a mínima importância para higiene, vivem numa imundice. Algumas casas são terra de ninguém e isso é muito ruim.
!NoMotel: Recentemente, você declarou que dava conselhos de vestimenta às colegas. Como uma prostituta deve se apresentar?
GL: Houve um tempo em que as meninas mais pobres estavam muito mal vestidas, elas estavam gordas e andavam de chinelinho. Um dia, cheguei para elas e falei: "P..., gente! Não tem que ser assim!" Elas tinham muita mania de comer miojo e, com isso, ficavam com aquela barrigona. Um tempo depois, um amigo antropólogo comentou comigo que elas estavam com uma aparência bem melhor e eu fiquei bastante feliz com isso. É tudo uma questão de auto-estima e elas precisavam melhorar a aparência.
!NoMotel: Na sua opinião, o que as mulheres poderiam fazer para que seus maridos não procurassem o trabalho de uma profissional?
GL: Para mim, fidelidade sexual não existe! Existe a fidelidade da companhia, de ficar junto etc, mas acho normal que ambos tenham vontade de ficar com outras pessoas. A mulher deve dar uma maior atenção ao homem na hora do sexo, mas as vontades deles nunca vão ser iguais. Por exemplo, uma mulher que passou pela menopausa passa a ter uma outra constituição e os homens continuam sempre iguais. É injusto, mas para essa mulher, o sexo não é o que ela mais procura na vida. Existem países que elas também têm uma liberdade maior para procurar auxílio profissional, mas aqui isso é muito escondido ainda.
!NoMotel: Hoje, qual o maior sonho da Gabriela?
GL: É que, um dia, a gente não precise mais lutar por essas causas. Que a sociedade seja mais justa e respeite a nossa profissão.
